Arremendar: uma etnografia das línguas e da comunicação interespecífica no Vale do Guaporé, Rondônia
Gabriel Sanchez (2025)
Arremendar: uma etnografia das línguas e da comunicação interespecífica no Vale do Guaporé, Rondônia
Gabriel Sanchez (2025)
Esta tese apresenta uma teoria etnográfica da língua a partir das comunicações constituídas por humanos e animais no sudoeste amazônico, na fronteira entre o Brasil e a Bolívia, tendo o conceito nativo de arremendar como o epicentro da investigação. Os povos indígenas que integram a Terra Indígena Rio Guaporé, em Rondônia, afirmam que os animais possuem línguas e os humanos, por sua vez, são capazes de compreendê-las e falá-las com o intuito de atrair as suas presas no momento cinegético. Ao fazê-lo, eles arremendam os animais, instaurando uma comunicação deliberadamente perversa e traiçoeira. Mobilizando os significados da língua animal, o caçador faz com que suas presas pensem, a partir das expressões ouvidas na floresta, que estão diante dos seus próprios congêneres. Mais do que uma simples imitação, o arremendar constitui uma arte verbal de convencimento capaz de transformar seres danados e sabidos, como são os animais, em presas amansadas. Para tanto, o caçador renuncia à sua própria língua para assumir as línguas feias e estranhas dos animais, experimentando o que defendo ser uma transformação parcial de si mesmo e de sua própria língua. Falar como animais e tratálos como parente representa um risco eminentemente fatal para os caçadores: não é aconselhável dirigir muitas palavras para um “parente” que vive empoleirado em um galho, suspenso pelo rabo ou escondido na vegetação rasteira, afinal, os verdadeiros parentes do caçador estão na aldeia bebendo chicha e falando línguas verdadeiramente bonitas. Ao investigar a noção de língua e como ela atravessa a prática do arremendar, esta etnografia busca contribuir para os estudos das comunicações entre humanos e animais e outros temas clássicos da etnologia indígena, debruçando-se sobre um objeto pouco explorado na antropologia e outras áreas do conhecimento: as línguas animais e como elas conformam redes de comunicações interespecíficas que conectam humanos e animais nas dinâmicas da caça e do convívio – uma faceta dos mundos ameríndios cujas implicações apenas começamos a compreender em toda sua profundidade.
Tese de doutorado orientada pelo Prof. Dr. Felipe Vander Velden (UFSCar).