os gatos não existem, só existem em todo lugar
Francisco Pazzarelli
os gatos não existem, só existem em todo lugar
Francisco Pazzarelli
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é quando a perna da cadeira se afunda uns milímetros no chão de terra que eu sinto que cheguei. a oferta de assento inscreve-se nas formas dos protocolos, mais do que isso, diria das gentilezas estendidas entre as famílias que me recebem nas montanhas de jujuy, seja quando eu chego para ficar por longos períodos, isso era mais comum anos atrás, seja agora, quando minhas viagens e estadias têm sido mais curtas. começamos sempre da mesma maneira, sente-se aqui, seu francisco, este mate é para você, conte-me como está córdoba, a sua família. e eu começo a contar, cumprindo o meu trabalho de recém-chegado, digo o que me parece importante, respondo às curiosidades. então, chega a minha vez de perguntar, como estão as coisas por aqui? a saúde, tem chovido o suficiente, o rebanho está bem? não há como não perguntar das cabras e ovelhas, estando eles mesmos, os pastores, como tantas vezes me explicaram, fabricados da mesma matéria. a pergunta sobre uns é sempre também uma pergunta sobre os outros, queira-se ou não; devemos levar a sério essas, digamos, continuidades na hora de falar. nenhuma palavra está a mais nem, sobretudo, a menos.
tem épocas, nem sempre é igual, claro, mas há momentos em que as notícias ganham cor de sangue, e não exagero. aconteceu-me várias vezes, naquele primeiro mate de boas-vindas, deparar-me com novidades duras, uma doença, a morte inesperada de um parente, alguma chuva excessiva que estragou os caminhos, aquela aparição do dano. trata-se de uma mobilização indispensável das chamadas más notícias, para uma primeira reorganização das relações. se, afinal, a minha chegada e a conversa inicial são uma retomada de conversas prévias, um recomeço do vínculo a partir do ponto em que o deixamos, as más notícias ajudam-nos, de imediato, a medir novamente a largura dos vínculos, a verificar o estado das relações, a ressituar, enfim, as nossas perspectivas sobre a vida e a morte, e sobre os vivos e os mortos. a novidade de um caminho estragado é um aviso para não passar por ali, contorná-lo, encontrar uma via alternativa, há sempre muitas, é só escolher bem, fica avisado. o espaço muda, sabemos, e nunca é um só.
chego hoje à casa de lucía, algumas pessoas já estão à minha espera, fazemos as primeiras brincadeiras, entro na cozinha, acho que vou beber um mate ali, mas não, melhor irmos para o outro quarto, lá é maior e não tem fumaça, e agora que estamos sentados, conte-me como você está, tudo bem com o trabalho? somos cinco, duas mulheres e dois homens da família estão ali, falamos um pouco, já respondi algumas coisas, agora é meu turno, passo direto ao assunto que me interessa, o primeiro é o primeiro, como há pouco confirmamos, então vamos às notícias não tão boas, contem-me, o que aconteceu com a panchita?
na viagem anterior, último verão úmido que passamos com a família, o curral estava cheio, e quando digo cheio refiro-me talvez à maior quantidade de crias que eu já tinha visto no lugar, motivo mais do que suficiente para comemorar a sorte familiar e até entregar uma cabra ao antropólogo, que, posso dizer com certeza, ficou muito feliz. a cabrita seria criada pela própria família, claro, o presente não era para retirá-la do rebanho, mas a sorte dela permaneceria, desde esse momento, atada à minha, e, com o passar do tempo e o desenvolvimento da cria, poderíamos confirmar se essa sorte de fato existia, se era muita ou pouca, se valia a pena, digamos, que eu continuasse investindo em novas cabras ou ovelhas ou, caso contrário, se devia esquecer dessa possibilidade e tentar nova sorte em outra espécie ou atividade, que animais e trabalhos sobram na montanha. a porta já estava aberta. um dos meus apelidos é pancho, sempre achei essa a menos elegante das derivações do meu nome, mas certamente é a mais carinhosa, e foi a escolhida para batizar a cria. olhem ela aqui, antes uma cabrita, agora a panchita.
eu sei, digamos, tinha sido treinado por eles para saber que durante os primeiros meses a vida das crias é um pouco instável: doença, acidente, perder-se nas montanhas ou virar comida de predadores, são motivos frequentes do desaparecimento dos mais novos dos rebanhos, o que não diz nada da perícia dos pastores, sempre excelentes, mas a vida é a vida, e às vezes é morte. quando parei, então, de receber novidades da panchita, supus que algo tinha acontecido, fiquei triste e intrigado, mas, sabendo que não eram coisas para falar por mensagens de celular, deixei para conversar neste momento, agora, de volta à casa e com o curral a cem metros deste lugar onde estou bebendo um mate com a família. olho para a yani, uma das pastoras responsáveis pelo rebanho, então, vamos lá,
o que aconteceu com a panchita?
não sabe?
não, como eu saberia?
sei lá, talvez alguém tenha contado para você.
não sei nada.
ficou perdida com outras, umas dez, na montanha
sério? e não deu para achá-las?
o gato achou-as primeiro
perderam-se e então o gato achou-as...
ou o gato fez elas se perderem primeiro, sei lá
mistério resolvido, então, era uma das possibilidades que eu tinha pensado, nem sempre há gato andando por aí, mas às vezes há, bom, foi isso, pena da minha sorte, durou pouco. mas aí vem a dona da casa,
gato de merda era esse que não deixava a gente em paz, roubou muito, não só essas, roubou muito, não parava, não parava, saímos a buscar, nada, nada, botamos foguete para espantar, nada, nada, todo dia pensando, quando as meninas saíam pastorear, ai meu deus, esse gato, se aparecer... até que apareceu, até deu um soco na caty.
o quê?
não sabia? ela ficou toda arranhada, rachada, tadinha, merda de gato!
escutamos passos vindos de fora, o sol está começando a cair, é hora, os pastores estão voltando à casa e aqui não é exceção. há uma troca de atividades, quem chega descansa e quem estava na casa vai para o curral, a dona e a yani saem, mas eu fico no quarto e vejo a caty, que passa agora pela porta e se senta numa das cadeiras desocupadas, nota-se cansada, todo o dia pastoreando, dá uma olhada geral, ela sabe que eu estou aqui, mas mesmo assim me vê e me sorri, surpreendida, seu pancho! como você está?, e pega um pedaço de pão e um mate. tento, mas não consigo falar muito, só algumas palavras e já vem o irmão mais velho, que até agora ficou em silêncio, e diz, ele quer saber do gato que te arranhou, mas eu rapidamente intervenho, não quero incomodar logo assim, eu só perguntei por causa da panchita,
ah, é, eu não estava quando as cabritas se perderam, mas depois procuramos e achamos pedaços, o dano tinha pegado
sim, isso me falaram. e ele te pegou também, é isso?
isso foi outro dia, porque sempre aparecia nessa época. eu estava sentada com o cachorro, ouvindo rádio, tudo tranquilinho, nem o cachorro percebeu e ele chegou por trás. eu me virei e o gato já estava aí do lado, fiquei assustada, me afastei, quase caí, e aí me arranhou aqui na cara, também arranhou o cachorro. eu dei um soco nele, bem forte, e aí o cachorro começou a latir e atacar, e só então ele foi embora
foi grave o arranhão?
mais ou menos, mas saiu sangue, saí correndo e voltamos para casa. as cabras ficaram na montanha e só depois fomos pegá-las e trazê-las de volta para o curral
ela fala despreocupada, com uma emoção controlada, manipulando a matéria da história em um correto tempo passado, para não deixar dúvidas, que finalmente é esse manejo o que permite separar o acontecido do que pode continuar acontecendo, tem que saber falar. o rosto já não tem rastros, podemos medir, então, de alguma maneira, esse passar do tempo, diremos que o ataque aconteceu há uns meses já, mas eu preciso confirmar,
e agora? está por aí, é para ter cuidado ainda?
não, não, quando o tio morreu, o gato desapareceu.
como assim?
não sabia que o tio morreu?
sabia, sim
então, aí o gato deixou de molestar
eu fico um segundo tentando entender essa conexão que as palavras sugerem, a caty pega outro pedaço de pão, age como se a história fosse transparente para mim, ninguém olha na minha cara. conheço esses modos da fala e do silêncio, são usados ou para testar a minha ignorância ou para me introduzir numa nova topografia vincular. acho que agora está acontecendo isto último, só depois saberei que o silêncio deles me dá o tempo e o espaço para eu cair na conta de que é a minha sorte, atada à cabrita morta, o que me faz parte dessa nova conversa. mas agora eu ainda não sei disso, então insisto na figura do gato,
então, ele aparecia de repente?
é, não dava para perceber que estava, não dava. depois que ele chegou em mim, os meus irmãos saíram com foguete para espantar, mas uns dias depois voltava a aparecer, dava para ver de longe
e depois que o tio morreu, desapareceu?
isso, foi embora.
entendo...
verbo inapropriado este para encerrar uma conversa assim, entender, que significado poderia ter essa pretensão aqui, pretensão de vivo e de humano nesta história de mortos e gatos? mas é que eu também quero agir como se compreendesse, me trouxeram até aqui de mãos dadas e agora estou solto, como cria que acabou de sair do curral e conhecer a montanha aberta, vai, se vira, vê aí, disse o pastor que se faz despreocupado mas está olhando de canto de olho. paciência, digo-me internamente, enquanto pego outro pedaço de pão, teremos tempo de falar depois, não dá para continuar agora, a família quer deixar esse assunto para trás. vamos falar de outra coisa, dizem eles, vamos, digo eu.
uns dias depois, a irmã mais velha da caty irá resolver as minhas dúvidas, mas desta vez com palavras ditas, que muitas vezes precisamos delas para percorrer uma nova trilha, quanta é a minha limitação, penso, e tento me conformar imaginando que talvez ela mesma, sendo criança, alguma vez tenha precisado de palavras similares, assim, em voz alta. afinal, criança pergunta muito, né?
então, é isso?
é isso, o tio era o gato, ou, digamos, o animu do tio era o gato
*
eu o conheci desde o início como gato e dano, a equivalência com o puma fui eu que construí, embora os pastores dissessem que sim, que era a mesma coisa, mas que eles nunca diriam puma, e assim faziam o de sempre: desdobravam a minha pergunta retórica numa paralelística infinita, porque, claro, gato e puma são a mesma coisa, mas nem a coisa nem o mesmo se parecem aqui um com o outro. nem falar que puma é uma palavra de origem quechua, que aqui eles falam espanhol, embora um espanhol indígena, e nem falar que o puma é concolor, disso, que eu saiba, eles não ouviram falar. aqui é gato e é dano, é aquele que dana, e nunca ouvi falar desse bicho em outros termos.
mas sou etnógrafo, digo-me, quero sim entender, e vejam como estou agora, de volta no meu quarto, depois de dias de conversa lá no alto com a família da caty, caderno em mãos, fazendo uma lista dos pumas, gatos, danos, dos quais tive notícias durante os últimos anos. nunca vi um, é verdade, não falta muito para eu descobrir por que, mas já ouvi tantas histórias que posso compreender minimamente o que significa um encontro com ele. reviso as minhas notas prévias, não tenho registros similares àqueles do tio-gato, talvez não seja estranho, antes também não tinha cabra. agora também não tenho, tadinha, mas tive, e isso me fez conhecer uma história nova. tadinha.
outras conversas não demoram a aparecer, a notícia do animu que vira dano é a chave que abre a porta da barragem. meu vizinho pastor me chama para pastorear, às vezes saímos juntos, vamos à montanha, conversamos, hoje não é diferente e então aproveito, pergunto, a resposta é rápida: claro, é assim, você não sabia? quando a morte está próxima, o animu começa a sair do corpo e se apresenta como gato aos parentes, amigos, aos próximos, digamos, e faz algum dano, nem sempre grave, mas sim, ele assusta, ataca, rouba. por que aos parentes? porque sim, tudo o que há de bom e de ruim na vida passa pelos parentes, não sabia? sei, a bruxaria também, tenho vários livros na biblioteca que falam sobre o assunto. digo-me, cuidado, isso aqui não é bruxaria, mas não adianta, a analogia aparece até nos sonhos, é foda.
o animu, direi eu, é o espírito principal dos seres que, salvo exceções, isto é, uma doença grave ou um trabalho, fica dentro do corpo. no entanto, quando a morte passa a ser um fato, embora ainda muito futuro, o balanço da relação dentro-fora, que dispõe as partes visíveis e invisíveis das pessoas, muda. talvez falte um ano para alguém morrer, ninguém sabe quanto, e o animu já está saindo, faz dano, mata cabras, arranha o rosto da pastora. a pessoa nem sabe que está perto do último sopro, como se diz, mas o animu solto já faz colapsar o tempo, a morte futura se faz presente, o dentro sai para fora, o espírito se apropria do espaço, chega a lugares impossíveis, brinca, assusta, cobra-se alguma vingança com parentes. os moribundos ficam transparentes, exibem o seu avesso, escolham a metáfora que quiserem, mas olhem bem: os pastores de rebanhos têm pumas dentro deles. cadê a diferença entre domesticação e caça, me digam, que eu queria saber.
pergunto por aquele outro puma, aquela outra história, e, ô, fico sabendo que também era parente. volto lá para cima da montanha, vamos visitar outra família, aqui eu tenho confiança com a tia que logo me chama para pastorear, vamos então, conversamos, gosto dela porque é engraçada, direta, enfática... claro! é tudo animu! bom, pelo menos ela não reclamou de eu não estar ciente dessa cláusula cosmológica, mas é que eu nunca li nada sobre essa transformação do animu nestas terras jujeñas. fico sabendo que não é só gato, animu pode virar todo tipo de bicho selvagem, mas gato, dano, é diferente, os relatos são muito consistentes, sempre que tem gato tem suspeita, não é assim com os outros. volto ao caderno, na lista, vejo e confirmo que não há gato ali registrado que esteja livre de história de animu, não há gato sem tio, não há pastor que não seja dano.
passam os meses, a pergunta vira atenção, às vezes até esqueço do assunto, mas então aparece alguma outra história, passada ou presente, apareceu uma ovelha morta, tem um gato estranho por aí, será animu? fica a dúvida, mas um dia chega alguém de visita, entra na casa, e já sabemos como é, vêm primeiro as notícias ruins, uma morte que vira surpresa, e a história se reorganiza. tudo o que aquele dano estranho fez um tempo atrás ganha sentido agora, até dá para associar o caminhar e a forma de matar desse gato com a personalidade do parente morto, era ele, olha só. e agora que sabemos, agora que a geografia relacional se atualizou, o gato-parente pode desaparecer, vai embora daqui, deixa lugar para o próximo. algumas convivências são impossíveis.
*
entre o puma e o gato habita uma equivocação, sabemos, mas isso não me interessa aqui. ou digamos, não me interessa enquanto não falemos, primeiro, da própria existência do gato, que é, finalmente, aquilo sobre o qual posso conversar com os pastores. e eis aqui uma possível descrição, cumpro o meu trabalho etnográfico: o gato existe, quer dizer, faz dano, enquanto a identidade do espírito que está por trás dele é desconhecida para os vivos. mas quando essa situação muda, quando as notícias ruins alcançam as famílias, quando a reterritorialização do animu é explicitada, o gato some, desaparece, acabou, foi embora. eis aqui um dos modos de existência do gato.
o gato é uma posição entre os vivos e os mortos, também é figura e forma, pele e ossos, carne e sangue, unhas e dentes, não importa aqui se é espírito ou não, que, afinal, como ficou claro na história, espírito também tem pele, ossos, carne, sangue, unhas, dentes. Se não, perguntem à caty. o gato é uma ação, gato é dano, dano é gato, dano-gato, escolham a combinatória, mas toda ação tem um efeito e é aí que está o gato também. o dano está nos pedaços das cabras perdidas, nas histórias, na pata torta do cachorro arranhado, no rosto da pastora que quem sabe se ainda não dói nas noites dos verões úmidos. eu mesmo me achava um observador, e olhem só, aqui estou, uns anos atrás, olhando fixo no celular onde há uma pergunta sem resposta, como está a panchita? nada, silêncio, ai, ai, fico triste. e vejam agora, de novo eu, sentado aqui, anos depois, tentando fazer do dano uma existência digna da experiência, como se o gato ainda estivesse aí, andando na montanha, estranho ele ter desaparecido se o efeito da sua passagem pelo mundo está tão vivo ainda. talvez por isso a matéria da história tem que ser fabricada no passado, melhor não incentivar as coincidências enquanto não for preciso.
pensei, claro, várias vezes, por que será que o tio, esse gato, comeu a minha cabra, mas não consegui entender. não tinha treta com ele, ao contrário, gostava da sua presença, mas quem sabe se era recíproco, né? bom, já sabemos. também não precisa ter treta assim, grave, seu francisco, um incômodo que ficou por aí sem resolver já é suficiente para o dano aparecer, às vezes nem a pessoa sabe que tem incômodos dentro para vingar. ok, aceito a explicação, mesmo assim, a cabrita já não está. cheguei a pensar, também que quando o gato atacou a família, a morte da minha cabra foi uma consequência inesperada, um dano colateral, como se diz. mas, vou ser sincero, eu deixei de acreditar no acaso assim que pus um pé na montanha, então não vou passar esse pano aqui. direi, então, que o tio cobrou sim alguma coisa comigo, embora eu não consiga saber o que foi. virei alguma espécie de parente nessa vingança incerta, que bom, esperança cumprida de antropólogo que não esperava chegar a isso passando pelo sangue de cabrita.
ficamos, então, à espera do próximo dano aparecer, é isso? somos quatro agora dividindo um mate com pão, a caty já contou tudo o que tinha para contar, agora assiste a novela que começou na tv digital, o irmão mais velho está pronto a sair, o outro não falou nem falará nada, eu tentando entender alguma coisa, mas não tem muito para entender. não tem gato, então, mas tem gato em todo lugar, olhem que fórmula repetidíssima estou usando. mas prefiro assim, nesse ponto convenço-me que as histórias dos gatos não se contam para ser explicadas, mas para nos fazer lembrar do avesso do mundo.
há três pastores no quarto, não há dúvidas, então, da quantidade de gatos que podem andar pelo mundo nas próximas décadas, é especulação, claro, como toda quantificação e toda antropologia. mas a matemática fica duvidosa quando olha para mim, a quarta pessoa na sala, nem me esperava esse cara sentado aqui, o que eu faço com ele, dono breve de cabra, é verdade, tem a sorte um pouco estragada, certo, foi pego pelo gato, tá, mas nem pastor é, meio pastor será se olhar com muito carinho, e nem conheço essa profissão que ele disse ter, vamos colocá-lo aqui nessa tabela provisória. resvalo na soberba interpretativa se eu digo que a sorte estragada é o gato para mim, que ele não existe além nem aquém disso, nem fora da incerteza que produz nos vivos quando aponta ao hiato que existe entre nós e o nosso dano interno? A matemática já não está inteira na conversa, está muito mais ocupada com a contagem das desforras, por que não coloca isso aí, seu antropólogo? por que não escreve no caderno que o gato é para você a lembrança futura das suas próprias vinganças de sangue. ou tá difícil usar o ‘eu’ agora? sou etnógrafo e quero entender, não foi isso o que ele disse? ai, ai, seu panchito.
Publicado em 14 de abril de 2026.
* Francisco Pazzarelli é antropólogo, pesquisador do Instituto de Antropología de Córdoba-CONICET e professor da Universidade Nacional de Córdoba, Argentina. Especializado em etnologia andina, sua etnografia desenvolve-se entre pastores indígenas de cabras e ovelhas nas terras altas do norte argentino, com foco nas relações humano-animal, na culinária e na ritualidade. É coordenador do Spectra-Laboratório de Antropologia Especulativa e diretor da revista Hojas Especulativas. franciscopazzarelli@ffyh.unc.edu.ar
* crédito da imagem: Aylén Pazzarelli, @lenndibuja
Como citar: Pazzarelli, Francisco. 2026. os gatos não existem, só existem em todo lugar. Blog da Capivara, disponível em: https://humanimaliaufscar.net/blog-da-capivara/os-gatos-nao-existem.