Escute os chihuahuas
Igor José de Renó Machado
Escute os chihuahuas
Igor José de Renó Machado
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Acordei às 6:20, em ponto. É a hora que meu filho levanta para ir para a escola. Graças a Deus, ele vai sempre de carona com uma vizinha, mas eu o busco na hora do almoço. Quando ele levanta, os cachorros acordam e pulam da cama, correm para porta e ficam arranhando até eu abrir. Eles vão encher o saco do Dimitri, esperando por pedaços de pão. Não todos, porque Uhtred fica na cama. Todo dia é a mesma coisa. Quando os outros três saem do quarto, ele se levanta da sua caminha (que fica em cima da cama), vem em minha direção e me encara com determinação e uma calma inesperada para quem imagina chihuahuas. Eu sei o que ele quer, ele é paciente. Estou meio dormindo, mas ele me encara tão compenetradamente que eu acordo. Ok, Uhtred. Eu levanto a colcha que uso para dormir, ele entra imediatamente e se aconchega ao meu corpo. Quando se ajeita, emite um lento suspiro e dorme instantaneamente.
Os outros três cachorros voltam da cozinha e sobem na cama. Todos sabem que Uhtred assumiu o posto sob a colcha. Durante a noite são os três que se revezam sob minha colcha fininha, alterando constantemente as posições. Uhtred nunca vem durante a noite, só quando o Dimitri acorda. São criaturas de hábitos muito regulares. Os três vão paras as casinhas em cima da cama e adormecem. Vamos dormir até as 8, quando eu levanto de um sono conturbado pelas andanças noturnas dos chihuahuas.
Mas todo dia, às 6:20 da manhã, eu me surpreendo. Me surpreendo porque Uhtred tem seus mecanismos de conversar comigo e, depois de um tempo de treino, eu lentamente aprendi. Eu sei que aquele olhar compenetrado é um pedido específico: levante a coberta, é minha vez de entrar. O que acontece ali naquele momento, e em vários outros momentos do meu dia, é uma comunicação direta. É uma linguagem que desenvolvemos: ele se adaptando às minhas capacidades de entendimento e eu às dele. Às deles todos, claro. Eles conversam comigo. Eu converso com eles, mas cada um estabelece suas próprias formas de expressão. Não são as mesmas. É como se para cada um deles nós desenvolvêssemos uma linguagem específica, uma interlinguagem. Cada um fala de um jeito, é preciso prestar muita atenção. Mas eles são pacientes, toleram nossa lentidão em entender.
Todo dia eu converso com eles e essas conversas implicam coisas que também me assustam: eles estão, obviamente, pensando no que querem. Quando Uhtred me pede para levantar a colcha, ele tem uma vontade, ele tem um desejo. E esse é um desejo que não é uma programação genética, não é a expressão de um autômato animal, nessa versão pouco imaginativa que as teorias behavioristas inventaram. É a expressão de um dos muitos desejos, vontades e manifestações de uma personalidade própria de Uhtred. Os etólogos encaram essa narrativa e muitas outras, de pessoas que vivem com animais, como meras “anedotas”. Não são a expressão de um conhecimento confiável, por isso é tão difícil reconhecer a capacidade animal de raciocínio e consciência. Mas mesmo os etologistas de laboratório já caminham nessa direção (de Waal, 2022), ainda que continuem desconfiando até mesmo dos métodos dos etologistas de campo (aqueles que passam anos observando animais livres). A filosofia já tangencia essa questão há algum tempo: os animais realmente parecem pensar e, pasmem, podem até ter consciência (Despret, 2021; Haraway, 2021). E a antropologia não tem muito problema em admitir esse debate, mesmo que as etnografias multiespécies continuem perturbadoramente centradas na agência humana, embora haja muitos esforços para uma integração efetiva com a etologia (Hartigan Jr 2021).
Mas quando Uhtred me acorda eu acho isso tudo tão obvio. É uma questão de escutar, entender e interagir. O que acontece ali na minha cama toda noite (ou em noites alternadas, que eu e minha companheira revezamos as noites com os cachorros) é uma comunicação, construída lentamente, pequenos passos que dependem mais da nossa capacidade de entendimento do que da capacidade deles: eles são pacientes.
São 1.30 da tarde, já busquei Dimitri na escola e já almoçamos todos (eu, Dimi e os cães). Antes de voltar ao computador, às 14 horas, é hora de sentar no sofá e relaxar um pouco. Sento e espero pelos chihuahuas. Todos eles: Uhtred, Rollo, Floki e Brida. Em segundos eles estão ao meu redor, é um momento que aprendemos a curtir: a soneca depois do almoço. Às vezes, um deles não vem e isso me incomoda profundamente. Chamo num outro tom de voz: Brida, cadê você? Ela larga o que estava fazendo e corre, chega com uma cara de paisagem e se aninha em algum lugar, desde que encostada em mim. É um hábito deles, mas é meu também. E como esse há inúmeros rituais no dia a dia. Todos eles são a expressão de algo que construímos lentamente. Muito lentamente, até cada um entender a língua do outro.
Uhtred chegou primeiro em casa, em plena pandemia. Antes, nossa casa era avessa aos animais, meio que por uma reação aos exageros de minha mãe. Ela virou uma cachorreira depois que se separou e vive entre muitos cachorros e gatos. Sempre achamos que era demais, que a casa era insalubre, que minha mãe não dava a atenção necessária aos meus filhos. Então, éramos radicalmente anti-animais em casa. Mas veio a pandemia e nos isolamos do mundo, meus filhos adolescentes enlouquecendo devagar. E comecei a sonhar com chihuahuas, durante um mês sonhei com eles todos os dias. Tudo era uma expressão do meu inconsciente, acho. Quando eu era adolescente e mudei de cidade com meus pais, passei por um isolamento semelhante. Naquele momento, tínhamos em casa o Max, um chihuahua com nanismo. Eu e Max éramos inseparáveis. Durante a pandemia, obviamente, meu inconsciente ativou a chave “fale com um chihuahua” para lidar com o isolamento. Ou foi o Max, que esteve sempre em mim, que surgiu novamente, me lembrando que eu já havia sido um chihuahua muitos anos antes. Era como um chamado.
Conversei com Sofia sobre os sonhos e descobri que ela passava horas vendo vídeos de animais. Instantaneamente soubemos que os cachorros viriam. Em duas semanas ela comprou Uhtred num canil especializado em chihuahuas (ok, me desculpem os que condenam o comércio de animais, mas a minha questão era específica com os chihuahuas). Pegamos Uhtred num cruzamento de estrada, onde a dona do canil nos encontrou: um cachorrinho extremamente assustado e medroso. Veio com muito medo, muito reticente. Saía de um lugar bacana, evidentemente, cortado de suas relações com os irmãos e a mãe. Dois meses depois, veio Rollo. Claro, não é possível viver com apenas um chihuahua: é preciso mais. E qualquer desculpa serve. Depois de mais três meses veio Floki, tão doce. E depois de um ano, já finda a pandemia, veio Brida. Agora era uma pandemia pessoal: eu fui fazer campo e, quando voltei, depois de três meses, Sofia tinha Brida no colo, o jeito dela de encarar a solidão que antropólogos impõem aos seus familiares.
Cada um chegou de um jeito e com personalidades diferentes, o que apenas foi se consolidando com o tempo. Nada muda o que um cachorro é: apenas chegamos a acordos de convivência. Ou oprimimos ainda mais os pequenos para que não nos aborreçam tanto. Essa diferença brutal de personalidade sempre me chocou: como era possível que eles fossem tão diferentes entre si como meus dois filhos o eram? Como era possível que eles se expressassem diferentemente e tivessem diferentes necessidades?
Assim como os filhos, vamos conhecendo os cães vagarosamente. E eles vão nos mostrando quem são e vamos aprendendo a lidar com eles. Mas não nos padrões comuns de “amestradores” de cães. O adestramento é uma intervenção de outra linguagem naquela que estamos construindo. Não é que seja ruim, sendo mesmo necessário em muitos casos, mas é sempre uma outra relação e uma outra linguagem. É alguém externo nos dizendo como falar com os cães, mas nos fazendo esquecer de simplesmente escutar os chihuahuas. Nós tentamos. Cada um de nossos chihuahuas têm suas manias e idiossincrasias. Uhtred odeia todas as pessoas que não sejam eu, Sofia, Cassiel e Dimitri. Odeia e, mais do que isso, carrega em si a missão única de nos proteger desses intrusos humanos na nossa matilha mista. Sim, porque não somos mais exatamente humanos, nem eles exatamente cães: somos todos outra coisa no meio. Nós nos encachorramos, eles se humanizaram. Foi o meio de conseguirmos conversar, somos uma outra coisa. Somos uma matilha humano-canina, canino-humana: canumanos. Por isso conversamos com nossos chihuahuas. E eles conosco. Criamos um meio comum de existência.
Quando tentamos treinar os cães, especialmente Uhtred e sua postura defensiva, bem, deu tudo errado. Percebemos isso quando no meio do treinamento, que deveria durar um mês, ele chegou perto da adestradora que lidava com o Rollo, sentada na nossa sacada, e sem nenhuma cerimônia, fez um enorme xixi nela. Ele olhava profundamente para mim enquanto mijava tranquilo. Agora entendo que era uma conversa, um jeito de me dizer que aquilo não era parte do nosso acordo canumano. E ele estava puto com isso. E continuou puto por meses, fazendo xixi em lugares errados, como nunca havia feito até então. Até hoje ele nos lembra dessa violência com xixis atravessados. O treino de adestramento foi uma violência, pois alterava brutalmente todos nossos esforços de comunicação em prol de outra linguagem dos amestradores. Ser amestrado ali era uma clara ameaça a nossa matilha canumana, nossa linguagem estava sendo alterada. Eles não queriam isso. E no fim, nós aceitamos o desejo dos cães e cedemos, interrompendo o treinamento e todo estresse que ele gerava.
Os cachorros são nossos filhos, nossos filhos são também canumanos e todos somos uma matilha com sua própria história. Conhecemos nossos hábitos, gostos e pequenos desvios de conduta. Nos adaptamos uns aos outros. Floki é um doce de cachorro, o mais amigável de todos. Mas quando ele está dormindo, nunca chegue seu rosto perto do dele: ele odeia e vai tentar te morder antes de saber quem está chegando perto (ele faz isso mesmo quando está sob alguma colcha). Aprendemos lentamente a identificar que os pequenos gemidos são sinal de que ele não está gostando do carinho e que não nos quer tão perto do rosto dele. Ele é assim. Já o Rollo, bem, o Rollo pode ser virado do avesso que nunca vai rosnar ou te atacar por nada, ele é absolutamente fiel à matilha canumana. A não ser que tentemos cortar suas unhas. Isso ele não admite e temos que criar esquemas muito complexos e cuidadosos para lidar com as mordidas que ele vai dar se tentarmos cortar as suas unhas. Brida tem seus momentos de loucura na brincadeira meio violenta com os irmãos, e tentar separá-los não é boa ideia: ela vai pular do seu colo mesmo que esteja muito longe do chão, o que é perigoso, pois ela só tem 1,8 kg.
E eles conhecem nossas manias e sentem nossos estados mentais. Quando estamos irritados eles apenas nos olham com cara de coitados e nós, inevitavelmente, nos desarmamos. É uma técnica bem desenvolvida de melhorar o humor da matilha. São muitos os nossos truques e nossas conversas. Muitas as formas de descobrir nossas subjetividades. Não faz sentido a ideia de questionar se os cães têm subjetividade (“vida interior”, pensamento, consciência). Só os muito surdos não percebem a consciência dos cães, só os que se fizeram surdos à comunicação. Os cientistas de laboratório penam com suas experiências ridículas para descobrir o que qualquer pessoa que escuta os cães sabe: eles pensam, assim como nós. E é possível pensar junto. E há ainda as tolices dos argumentos anti-humanização dos cães, que servem apenas de escudo para que continuem surdos. Todos os cães que vivem conosco se humanizam. E nós que vivemos com eles nos encachorramos. Não é possível escutar os cães sem reconhecer neles a humanidade construída, assim como não os escutamos se não nos encachorramos. Martin (2021) afirma que virou urso, com um sonho e um contato violento, com o cruzamento dos olhares. Um caso perigoso de descontrole das fronteiras entre humanos e ursos. Eu sonhei com chihuahuas, isso os trouxe para minha vida novamente. Mas acho que o sonho foi um relembrar. Eu já tinha me canumanizado antes, no meu encontro com Max, o chihuahua com nanismo. Durante os três rápidos anos que durou a vida de Max, eu me transformei (assim como Martin), não em uma fera, mas, ainda assim, num limite: um canumano. Depois eu me esqueci disso, dos efeitos que minha pequena matilha com Max e meus irmãos havia produzido em mim. A pandemia trouxe novamente o canumano em mim: ela arrancou do meu inconsciente a minha canumanidade, cobrando em sonhos o dever de lembrar, e de escutar. E eu lembrei, eu escutei. Eu escuto os chihuahuas. Natassja Martin duvida que o urso seja uma manifestação do seu inconsciente, como se isso fosse uma oposição à real transformação em urso que ela sofreu (e com a qual convive). Como se a explicação da nossa sociedade fosse menos interessante. Mas o inconsciente pode ser o que temos de comum com os demais seres, e é ele que nos coloca em relação, mesmo contra nossa vontade consciente. Como Lacan afirma, retomando Ferenczi, o começo da interpretação está na comunicação dos inconscientes (Lacan, 1998, p. 341). Minha canumanidade inconsciente cobrou um preço em escuta e atenção. Eu escutei. Uhtred, Rollo, Floki, Brida, Sofia, Cassiel e Dimitri também escutam.
Referências citadas
Despret, Vinciane. 2021. O que diriam os animais? São Paulo: Ubu Editora.
Haraway, Donna. 2021. O manifesto das espécies companheiras: Cachorros, pessoas e alteridade significativa. Bazar do Tempo Produções e Empreendimentos Culturais LTDA.
Hartigan Jr, John. 2021. Knowing Animals: Multispecies Ethnography and the Scope of Anthropology. American Anthropologist, 123 (4): 846–60.
Lacan, Jacques. 1998. Variantes do tratamento-padrão. Em _____. Escritos, 325–65. Rio de Janeiro: Zahar.
Martin, Nastassja. 2021. Escute as feras. São Paulo: Editora 34.
Waal, Frans de. 2022. Somos inteligentes o bastante para saber quão inteligentes são os animais? Editora Schwarcz-Companhia das Letras.
Publicado em 19 de dezembro de 2025.
* Igor Machado é antropólogo, doutorado em 2003, na UNICAMP (Universidade Estatual de Campinas, Brasil). É professor da Universidade Federal de São Carlos desde 2004, onde atualmente é professor titular. Especializado em migrações, coordena um laboratório de estudos migratórios (LEM) desde 2006 e tem produzido trabalhos sobre brasileiros no exterior, refugiados no Brasil, migração e parentesco. É membro suplente do CNIg. Já foi chefe de departamento, coordenador da pós-graduação em Antropologia, diretor da editora da universidade e chefe de conjunto de laboratórios em ciências humanas na universidade federal de São Carlos (LIDEPS).
Como citar: Machado, Igor José de Renó. 2025. Escute os chihuahuas. Blog da Capivara, disponível em: https://humanimaliaufscar.net/blog-da-capivara/escute-os-chihuahuas.